Além da balança: por que mulheres buscam tanto os inibidores de apetite?

mulher pensando na sua própria dieta enquanto come um prato de salada em um restaurante
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Caio Vega

Última atualização

6 de fevereiro de 2026

Nos últimos tempos, parece que não se fala em outra coisa a não ser remédios para emagrecer. Seja nas redes sociais, nas conversas de bar ou nos consultórios, a busca pela “pílula mágica” que derrete quilos nunca esteve tão em alta. Mas você já parou para se perguntar o que realmente está por trás dessa corrida desenfreada, especialmente entre as mulheres?

Ciência & Saúde Coletiva


Um estudo fascinante realizado por pesquisadoras da Universidade Federal de Viçosa e da UFMG mergulhou fundo nessa questão. Elas não queriam apenas saber quantos quilos se perde, mas por que mulheres adultas decidem tomar inibidores de apetite e como elas enxergam seus próprios corpos nesse processo.

O que elas descobriram é revelador: o remédio é muito mais do que uma química para o corpo; ele é uma “bengala” emocional, um passaporte para a aceitação social e, na cabeça de muitas, a única via para a felicidade. Vamos desvendar os principais pontos dessa pesquisa e entender o peso (invisível) que muitas mulheres carregam:

O remédio como magia e como bengala


Você já sentiu que precisava de uma ajuda externa para conseguir algo que parecia impossível sozinho? Para as mulheres entrevistadas no estudo, os inibidores de apetite funcionam exatamente assim.

As participantes descreveram o medicamento como uma “bengala”. A lógica é curiosa: elas sabem que precisam se esforçar, mas sentem que o regime só funciona se estiverem tomando o remédio. É como se a pílula validasse o esforço.

Mais do que isso, o medicamento carrega um simbolismo de magia. Uma das entrevistadas relatou a sensação de felicidade instantânea ao ver o efeito rápido, descrevendo-o como um “milagre” ou um “passe de mágica”. Esse sentimento revela que, para muitas pessoas, o medicamento não é apenas um tratamento de saúde, mas uma mercadoria que se compra para obter um estado de ânimo melhor e uma autoimagem renovada.

No entanto, essa “mágica” tem um preço comportamental. As mulheres relataram que o remédio funciona também como um vigia punitivo: “se você come muito, te dá dor de barriga”, disse uma delas. Ou seja, o medicamento força um controle que a própria pessoa sente que não tem.

A equação cruel: magreza = felicidade


Talvez o ponto mais tocante do estudo seja a forma como a sociedade (e as próprias mulheres) construíram uma equação rígida sobre o sucesso na vida. A pesquisa mostrou que o corpo magro é visto como algo capaz de alterar a personalidade e o destino de alguém.

A regra não dita, mas sentida na pele, é:

  • Pessoa Gorda = Pessoa Infeliz;
  • Pessoa Magra = Pessoa Feliz.

Para as entrevistadas, emagrecer não era apenas uma questão de saúde (colesterol ou joelhos doendo), mas uma estratégia para “conquistar a felicidade”. E o que é essa felicidade? Para muitas, ela está atrelada ao sucesso no casamento e à aceitação social. O corpo é visto como um objeto que precisa ser moldado para garantir o afeto e a estabilidade conjugal.

Uma das participantes foi categórica ao dizer que queria ficar bem consigo mesma para conseguir namorar, pois se achava “horrível” antes de perder peso. Atingir a magreza foi sinônimo de “atingir todos os objetivos”.

A pressão familiar

Se você acha que a pressão para emagrecer vem apenas das capas de revista ou do Instagram, pense de novo. O estudo revelou que a cobrança mais dolorosa vem de dentro de casa. E, muitas vezes, vem dos homens da família.

Quando as pesquisadoras perguntaram se alguém já havia dito que elas precisavam emagrecer, a resposta foi unânime: irmãos, maridos e pais. Relatos de irmãos chamando as irmãs de “baleia” ou maridos cobrando que a esposa estava ficando “barriguda” apareceram com frequência.

Isso expõe uma ferida profunda nas relações de gênero: enquanto a sociedade cobra do homem que ele seja trabalhador e provedor (a beleza dele é secundária), da mulher cobra-se a juventude e a beleza como se fossem suas obrigações principais. Uma mãe chegou a relatar sua preocupação com a filha de 82 quilos, temendo que ela não conseguisse casar, pois “um rapaz não olha para uma moça desse jeito”.

Esses comentários geram tristeza, baixa autoestima e revolta. As mulheres sabem que estão acima do peso (“você tem espelho, né?”, disse uma), e ouvir isso de quem amam só aumenta a necessidade de buscar o remédio como uma solução rápida para parar de sofrer.

“Não é por ninguém, é por mim”

Uma frase muito comum ouvida na pesquisa foi: “Eu quero estar bem comigo mesma”. À primeira vista, parece uma atitude empoderada e independente. Mas o estudo questiona: o que significa esse “estar bem”?

Na prática, “estar bem consigo mesma” estava sempre atrelado a “estar magra”. As mulheres diziam querer apenas “se sentir bem na roupa”. Mas, como o estudo aponta, a moda é feita para corpos magros. Não encontrar uma roupa que sirva é uma experiência humilhante que faz a mulher se sentir “a pessoa mais feia do mundo” e voltar para casa chorando.

Portanto, o desejo de emagrecer “para si mesma” muitas vezes é apenas uma resposta internalizada à pressão externa. A gente quer emagrecer para caber na roupa, porque a roupa (e a moda) diz que nosso corpo natural está errado.

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A influência das amigas e a banalização do remédio

Como essas mulheres chegam até o medicamento? Muitas vezes, não é através de uma consulta médica criteriosa, mas pelo burburinho e pela fofoca.

A influência das redes sociais (aqui entendidas como amigos, família e conhecidos) é enorme. Uma entrevistada contou que, mesmo com profissionais contraindicando o uso, ela decidiu tomar porque viu o resultado na cunhada. “Eu vi o efeito, então eu queria o efeito para mim”, disse ela, ignorando os riscos.

A automedicação ou o compartilhamento de receitas é comum. Se o namorado parou de tomar porque fez mal, a mulher pega o remédio dele e começa a usar. Isso mostra uma banalização perigosa: o inibidor de apetite deixa de ser um medicamento sério e vira um produto de beleza que se empresta, como um batom ou um vestido.

O médico: herói ou vilão?


E onde entram os médicos nessa história? Para muitas dessas mulheres, o médico é visto de forma utilitária: ele é o “fornecedor” da receita.

Existe uma relação ambígua. Por um lado, as pacientes buscam profissionais conhecidos por “nunca negar” a prescrição. “Ele é cardiologista, mas só receita fórmula para emagrecimento”, relatou uma participante. Elas sabem que, se um não der, outro dará.

Por outro lado, há relatos de humilhação. Algumas mulheres contaram que pagam consultas para ouvir desaforos de médicos que as chamam de “porcas” ou dizem que elas “não fecham a boca”. O medicamento, nesse cenário, surge como a única forma de escapar desse julgamento cruel: a mulher toma o remédio para não ter que ouvir sermão, criando uma dependência do prescritor.

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Conclusão


O que este estudo nos ensina é que o uso de inibidores de apetite por mulheres não pode ser analisado apenas sob a ótica da saúde física. Ele é um fenômeno social.

Vivemos em uma cultura onde o corpo feminino é visto como um objeto a ser “domesticado” e moldado. A magreza é vendida não apenas como saúde, mas como competência, felicidade e garantia de amor. O medicamento entra como a ferramenta moderna para alcançar esse ideal inatingível para muitas.

Enquanto a sociedade continuar dizendo que mulher gorda é sinônimo de mulher infeliz ou fracassada, a busca pela “pílula mágica” continuará, com ou sem prescrição médica. Precisamos falar sobre saúde, sim, mas também precisamos urgentemente falar sobre como a pressão estética e os papéis de gênero estão adoecendo a mente das mulheres antes mesmo de afetarem seus corpos.

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