Se você abriu as redes sociais nos últimos meses ou conversou com amigos sobre dietas e como perder peso, é muito provável que tenha ouvido falar das famosas “canetinhas” para emagrecer. O nome Victoza (ou liraglutida) tornou-se quase onipresente quando o assunto é perda de peso rápida.
Mas, em meio a tantas promessas de milagres e fotos de antes e depois, o que a ciência realmente diz? Nesse artigo, vamos traduzir o mediquês para o português claro e explicar tudo o que você precisa saber antes de considerar essa opção.
O cenário atual: por que estamos buscando milagres?
Um estudo de revisão bibliográfica publicado no Brazilian Journal of Development mergulhou fundo nas pesquisas para entender se esse medicamento funciona para quem não tem diabetes e, principalmente, se ele é seguro.
Antes de falarmos do remédio, no entanto, precisamos entender o contexto. A obesidade é tratada hoje como a “epidemia do século 21”. Organizações de saúde apontam um aumento alarmante de peso na população mundial. No Brasil, dados do VIGITEL mostram que a obesidade saltou de 15% para 18% em poucos anos.
Para piorar, a pandemia de COVID-19, iniciada em 2019, intensificou esse quadro. Com a rotina desregulada, o estresse e o sedentarismo forçado, muitas pessoas ganharam um peso significativo. É nesse cenário de urgência e insatisfação corporal que surgem as chamadas “canetas milagrosas”, prometendo resolver um problema complexo de forma rápida.


O que é a Victoza (Liraglutida)?
Originalmente, a Victoza não foi criada para emagrecer. Ela é um medicamento desenvolvido para tratar o Diabetes Mellitus Tipo 2.
A liraglutida é o que os cientistas chamam de análogo de GLP-1. O GLP-1 é um hormônio que nosso intestino produz naturalmente quando comemos. A função do remédio é imitar esse hormônio, mas de uma forma mais potente e duradoura. Devido à sua eficácia em controlar o açúcar no sangue e reduzir o peso em diabéticos, ela despertou o interesse de médicos e pacientes para o uso em pessoas sem diabetes.
Como ela age no seu corpo? (a ciência simplificada)
Você já sentiu que, mesmo depois de comer, seu cérebro continua pedindo comida? Ou que seu estômago esvazia rápido demais? A liraglutida atua exatamente nesses pontos.
O estudo explica que o medicamento age em duas frentes principais para fazer você comer menos:
- No cérebro (o centro de comando): a liraglutida viaja pelo sangue até o hipotálamo, a região do cérebro que controla a fome e a saciedade; ela engana o cérebro, enviando sinais químicos que dizem: “Já estamos satisfeitos, não precisa comer mais”, o que diminui o apetite drasticamente.
- No estômago (o freio de mão): o remédio retarda o esvaziamento gástrico, e isso significa que a comida que você ingere fica mais tempo no seu estômago; a sensação de barriga cheia dura muito mais tempo, o que evita que você sinta fome logo após as refeições.
Mas funciona mesmo para quem não é diabético?
Essa foi a grande pergunta que o estudo buscou responder. Ao analisar diversos ensaios clínicos (testes rigorosos com pacientes), a resposta foi positiva: sim, a liraglutida promove perda de peso significativa em não diabéticos.
Veja alguns resultados impressionantes citados no artigo:
- Perda de peso real: Em um estudo comparativo, 92% dos pacientes que usaram liraglutida perderam peso, comparado a apenas 65% daqueles que usaram placebo (uma injeção sem efeito). A perda de peso no grupo do remédio variou entre 6,7% e 8% do peso corporal total.
- Melhora do sono: outro estudo específico mostrou que o medicamento ajudou pessoas obesas com apneia do sono. Quase metade dos usuários (46,3%) perdeu mais de 5% do peso corporal, o que melhorou a qualidade da respiração ao dormir.
- Saciedade somprovada: outra pesquisa confirmou que a substância realmente diminui o volume máximo que o estômago tolera, fazendo com que a pessoa se sinta cheia com porções menores de comida.


E quanto aos efeitos colaterais e os riscos?
Aqui entra o alerta mais importante: não existe medicamento potente sem efeitos colaterais. O estudo é muito claro ao listar os problemas que podem acompanhar o uso da Victoza.
Os efeitos mais comuns (que atingem mais de 10% dos usuários) são gastrointestinais:
- Náuseas (muito frequente);
- Vômitos e diarreia;
- Prisão de ventre (constipação).
No entanto, existem riscos mais graves, embora menos comuns, que exigem atenção médica imediata:
- Pancreatite: inflamação no pâncreas;
- Pedra na vesícula (colelitíase): devido à perda de peso rápida;
- Alterações cardíacas: aumento da frequência cardíaca (taquicardia);
- Problemas renais: incluindo insuficiência renal aguda em casos raros.
Além disso, a ANVISA alerta que o uso por indivíduos saudáveis (que querem perder apenas “uns quilinhos” por estética) ainda carece de estudos de segurança a longo prazo. O uso indiscriminado pode trazer consequências desastrosas para a saúde.
Quando a caneta emagrecedora começa a fazer efeito?
Os agonistas GLP-1 mais modernos são semanais, o que quer dizer que eles demoram um pouquinho mais para fazer efeito. As medicações, em geral, você precisa ter aplicado de 3 a 4 doses para ter atingido algo próximo da concentração eficaz dele. Possivelmente há aqueles que têm resultado muito antes, mas podemos dizer que: na média, de 3 a 4 semanas é um prazo razoável. Lembrando que tem gente que vai responder a uma dose mais baixa e tem gente que precisa aumentar um pouco mais a dose para ter resposta, então existe uma certa variação individual.
A Liraglutida substitui a dieta e a academia?
Essa é a pegadinha que muitos caem. A resposta do estudo é um sonoro NÃO.
A obesidade é uma doença complexa. O medicamento atua como uma ferramenta poderosa para quebrar o ciclo da fome e permitir que o paciente consiga aderir a um plano alimentar.
Um dos estudos citados mostrou isso claramente: o grupo que teve os melhores resultados (perda de 11,8% do peso) foi aquele que combinou Liraglutida + Dieta + Terapia comportamental.
O medicamento não queima gordura sozinho; ele facilita o déficit calórico. Se o paciente não mudar seus hábitos alimentares e não sair do sedentarismo, o efeito será limitado e, pior, o peso voltará assim que o remédio for suspenso. O artigo reforça que o tratamento farmacológico atua para prevenir a progressão da doença, mas deve ser sempre auxiliar à mudança de estilo de vida.
Conclusão: é para você?
As pesquisas concluem que os análogos de GLP-1, como a Victoza, são promissores e eficazes para o tratamento da obesidade, tanto em diabéticos quanto em não diabéticos. Eles oferecem uma esperança real para quem luta contra a balança e já tentou de tudo sem sucesso.
No entanto, não é um cosmético. É um medicamento sério, com efeitos colaterais reais e que exige prescrição e acompanhamento médico rigoroso. O estudo que trouxemos aqui finaliza lembrando que “o uso do fármaco não substitui hábitos de vida saudável”.
Se você está considerando o uso, procure um endocrinologista. Não use a receita da amiga ou compre por conta própria (desde 2025 é necessária a retenção de receita pela farmácia que vende o medicamento). Sua saúde vale mais do que a promessa de um milagre rápido.